História

Crianças da Amazônia acompanha a cineasta brasileira Denise Zmekhol em sua viagem pela estrada BR 364 até o coração da Amazônia, à procura das crianças Suruí e Negarotê que ela havia fotografado 15 anos antes. É um filme sobre uma viagem, em parte uma viagem no tempo – uma jornada que conta a estória do que aconteceu na vida da maior floresta do planeta quando a estrada cortou suas terras.

Durante inúmeras gerações, a floresta amazônica foi o lar dos povos Suruí e Negarotê, que viviam no que chamavam de “tempo da floresta” – um tempo que vai muito além da vida humana contemporânea. O único contato destas tribos com o mundo externo era por intermédio dos seringueiros, que chegaram na floresta no século XIX e cujo trabalho de talhar seringueiras não destruía as árvores.

E então… tudo mudou. As trilhas se transformaram em estradas, as estradas em rodovias que atravessam mais de 3200 quilômetros de floresta. Com a chegada desta interligação ao restante do Brasil, o mundo do “tempo da floresta” começou a ser rapidamente ocupado por colonos, madeireiros e criadores de gado. A floresta exuberante foi desmatada e queimada, doenças fatais dizimaram milhares de indígenas, e o “tempo da floresta” sofreu uma transformação irreversível.

A jornada cinematográfica de Denise reúne entrevistas e reflexões pessoais e poéticas sobre a devastação ambiental, a resistência e a renovação. O resultado é uma visão original da floresta amazônica contada, em parte, pelos próprios indígenas que vivenciaram o primeiro contato com o mundo moderno há menos de 40 anos. Os personagens centrais do filme são as crianças, hoje adultos, que Denise fotografou a mais de 15 anos atrás: entre elas, Itabira e Almir, Suruís que hoje navegam as águas arriscadas entre a preservação cultural e a subsistência econômica; e Chico Mendes, legendário seringueiro que organizou o movimento de militância pacifista para salvar a floresta, e que foi assassinado por um fazendeiro.

No final de sua jornada, Denise descobre como o esforço conjunto dos povos indígenas, dos seringueiros e de seus aliados começaram a proteger a floresta. O filme nos faz entender a relação estreita que existe entre nós mesmos, essa floresta distante e os povos que a habitam. Todos nós somos Crianças da Amazônia — pois respiramos o mesmo ar, caminhamos no mesmo planeta e, de certa forma que ainda não compreendemos totalmente, compartilhamos o mesmo destino.

amazon-forest-rock
paved-road
Compre o DVD

Informações gerais sobre a Amazônia

A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e contém a maior biodiversidade do planeta. Extremamente abundante em recursos naturais, a floresta é rica fonte de plantas medicinais, é o habitat do maior número de espécies em toda a Terra e é onde vivem muitos povos indígenas.

A área da floresta amazônica equivale à dos 48 estados contíguos dos Estados Unidos. A Amazônia abrange nove países sul-americanos e desempenha um papel ecológico instrumental no equilíbrio de padrões meteorológicos globais. A floresta é um laboratório biológico que transforma o dióxido de carbono da atmosfera em oxigênio, mitigando substancialmente o efeito de estufa em todo o planeta.

Mais da metade da população indígena do Brasil vive na floresta amazônica; 60% da área total da Amazônia é território brasileiro. Antes da chegada dos colonos europeus no século XVI, os povos indígenas constituíam uma população de 2 a 4 milhões. Durante séculos, a Amazônia funcionou como barreira natural, protegendo os habitantes da floresta do contato com os colonizadores. À medida que essa barreira se tornou mais frágil, o mesmo aconteceu com as populações que habitam a floresta.

Na década de 1960, o governo federal deu início a um dos maiores projetos de obras púbicas de toda a sua história: a BR-364 — rodovia de duas pistas que cobre uma distância de mais de 3200 quilômetros entre o Mato Grosso e o Acre. A rodovia foi um projeto conjunto do governo brasileiro e de bancos multilaterais de desenvolvimento, e possibilitou o acesso de roceiros e trabalhadores sem recursos financeiros a terras mais baratas. Nas décadas subsequentes, contudo, ocorreram frequentes e violentos conflitos entre os novos moradores da região e os habitantes da floresta quanto à titularidade da terra.

O contato com pessoas de fora foi devastador para as comunidades indígenas. A exposição a doenças e os conflitos violentos sobre os recursos florestais reduziu a população indígena da Amazônia a 10% da população existente antes do contato com os colonos. Os povos indígenas da região sofreram perdas culturais imensas, e a floresta, sua moradia, sofreu danos irreversíveis.

Em 1988, depois de décadas de deslocamento e relocação, o Brasil começou a reconhecer os direitos dos povos indígenas às suas terras originais e a preservar seu modo de vida. Geólogos do governo federal demarcaram centenas de reservas indígenas. Contudo, frequentemente essa proteção só existe em teoria; as zonas indígenas são regularmente destruídas por operações ilegais de pecuária, mineração e corte de madeira.

Hoje, apesar de rigorosas advertências, a floresta amazônica continua a ser destruída para ser usada como pasto para gado e as árvores continuam a ser cortadas para atender a demanda mundial por madeiras de lei. Quase 800.000 quilômetros quadrados de floresta foram totalmente destruídos desde 1970, e isto considerando-se apenas o território brasileiro (estimativa do INPE). A recente diminuição do desmatamento nos dá esperança de que o maior controle e os programas governamentais de preservação venham a ser eficazes. Mas o trabalho de monitoração obteve um sucesso apenas parcial. Se o índice de desflorestamento continuar o mesmo, dentro de apenas alguns anos será o maior fator de influência na mudança climática.

surui-village-flower
surui-village-leaf
surui-village-forest

Os seringueiros e Chico Mendes

No final do século XIX, como resposta à demanda cada vez maior de borracha nos EUA e na Europa, uma leva de trabalhadores do Nordeste foi à Amazônia para extrair borracha das seringueiras. No decorrer dos próximos cem anos, com o aumento e a queda do preço da borracha no mercado mundial, os seringalistas abandonaram suas fazendas, mas os seringueiros permaneceram na região, tentando sobreviver da extração sustentável do látex. Desde a década de 1970, com a expansão da rodovia BR-364 e os programas de subsídio de fazendeiros pelo governo, milhões de hectares da selva amazônica foram destruídos pela pecuária. Sem trabalho e sem ter onde morar, os seringueiros sem teto se dispersaram pelas cidades, tornando-se parte da classe pobre urbana.

Como reação à perda de terras e de trabalho, Chico Mendes, um dos seringueiros, começou a organizar seus companheiros para lutar contra a destruição da floresta, que agora ocorria em grande escala. Em 1985, foi formado o Conselho Nacional dos Seringueiros. O Conselho sugeriu a criação de reservas extrativas sob proteção do governo federal, dedicadas ao uso sustentável da floresta pelos seringueiros e povos indígenas. Embora o trabalho de Chico Mendes tenha obtido apoio internacional, grandes latifundiários reagiram de forma brutal a essa iniciativa. Em 1988, Chico Mendes foi assassinado por um fazendeiro, em sua própria casa. Durante os 20 anos após a sua morte, foram criadas 65 reservas numa área de quase 11 mil hectares.

chico-mendes

“A destruição da Amazônia, hoje, ameaça não só as vidas dos seringueiros e índios, mas também de todos os seres humanos que habitam nosso planeta Eu acho que os jovens têm um papel muito importante na luta em defesa da Amazônia. — Chico Mendes. 1988.”

O Povo Negarotê

Na década de 1960, a construção da rodovia BR-364 cortou terras no estado do Mato Grosso, assim como aldeias Nambiquara, tribo-mãe dos Negarotê. A subsistência na floresta, baseada no cultivo de pequenas roças e na caça com arco e flecha, com abrigos efêmeros sob folhas de palmeiras, foi devastada pelo corte de árvores para construção de moradias para milhares de novos colonos. Grande parte da população Nambiquara foi dizimada em consequência da exposição súbita aos vírus de sarampo e influenza. Os índios que sobreviveram foram removidos à força para uma reserva pequena e árida. Sem condições de se sustentar na reserva, os sobreviventes Nambiquara resolveram voltar à sua terra, numa caminhada de 320 km. Milhares deles morreram de fome e doenças no meio do caminho. Em 1975, restavam apenas 530 Nambiquara – 90% da população original foi dizimada.

Os Negarotê foram forçados a trabalhar sem remuneração, pelos seringalistas e fazendeiros que invadiram suas terras. Hoje, eles vivem em uma pequena reserva, 15% do tamanho original de suas terras, que ainda continua a ser ameaçada pelas atividades madeireiras. Sua resposta à exploração da floresta é variada. Alguns se opõe intensamente a qualquer concessão às madeireiras, enquanto outros, atraídos pelo lucro, se aliam ao corte ilegal de árvores. Pelo menos 18 caminhões por dia saem carregados de madeira de locais remotos na selva profunda, em terras Negarotê, onde as árvores geralmente são derrubadas sem nenhuma supervisão tribal.

anita-sandra-negarote

O Povo Suruí

Durante séculos, os Suruí (que em sua própria língua se chamam “o povo verdadeiro” ou “nós mesmos”), foram um dos primeiros grandes grupos de indígenas a peregrinar pela floresta amazônica, ao longo dos limites do que atualmente constitui os estados de Rondônia e Mato Grosso. As comunidades eram formadas de malocas, e subsistiam da caça, pesca e cultivo de pequenas roças. Em 1969, representantes do governo federal fizeram contato com os Suruí, na esperança de minimizar os conflitos entre os índios e os novos colonos que chegavam pela BR-3643. A exposição a doenças quase exterminou totalmente a tribo. No início da década de 70, muitos colonos inadvertidamente adquiririam títulos falsos a terras Suruí, nas quais construíram pequenas fazendas. Seguiu-se uma década de violência, que terminou com a retirada forçada desses fazendeiros pelo exército brasileiro. Os Suruí assumiram novamente a posse de suas terras e começaram a usufruir dos cafezais plantados pelos fazendeiros. Em 1983, a terra Suruí foi reconhecida oficialmente como zona indígena. Contudo, os órgãos governamentais foram ineficazes quanto a impedir o corte ilegal de árvores, apesar do status de proteção das terras; a maioria do mogno, do ipê e da cerejeira foi retirada das terras Suruí. Surgiu um movimento para preservar a cultura Suruí e a floresta que é seu habitat, e foram criados vários projetos apoiados e financiados por várias organizações internacionais. No entanto, por todo o Brasil, continuam a haver conflitos entre, de um lado, o povo Suruí e os ativistas da preservação florestal e, de outro, as companhias madeireiras e os fazendeiros.

chief-almir
Share This
    |

    One Response to “Contexto”

    1. want disse:

      I absolutely love this blog site! The info is invaluable. Thanks a lot for most of the posts and making my morning. Special regards, want

    Leave a Reply